Autarca defende “envolvimento nacional” na requalificação de Conímbriga
O presidente da Câmara de Condeixa entende que é altura para «actualizar» Conímbriga. O sítio arqueológico «parou no tempo», por isso é preciso vivificar o espaço, num trabalho no qual a autarquia pode colaborar, mas depende essencialmente do Estado.
Diário de Coimbra (DC)- Defendeu, na campanha eleitoral, a aposta em “pessoas” e não tanto em “obras”. É isso que está a ser feito?
Jorge Bento (JB)- É isso que está a ser feito. Estamos num processo de mudança do modelo organizacional das autarquias e, por outro lado, estando no fim de um ciclo de quadro comunitário deixa mais tempo para tratar das questões organizacionais. Neste primeiro ano dedicámos bastante tempo às questões internas. Temos em curso um processo de certificação de serviços e estamos a contribuir para que a capacidade de resposta perante os nossos munícipes melhore. É fundamental para que Condeixa se posicione perante uma realidade emergente que é o aumento das competências dos municípios.
DC- Mas há problemas de fundo que importa resolver, como as acessibilidades...
JB- A questão das acessibilidade é um problema central. Apesar dos problemas pontuais do IC2, as acessibilidades de Condeixa são boas, basta termos o nó da A1. Claro que estamos permanentemente insatisfeitos e a questão do IC2 é incontornável mas não deve ser obsessiva. Não o quero tornar numa bandeira negativa, porque não posso ter um discurso aliciador para as empresas e dizer que o IC2 é um problema dramático. Não é impeditivo que Condeixa se afirme como pólo residencial e industrial.
DC- Nos últimos anos, e fruto da localização estratégica, Condeixa tem conseguido captar importantes investimentos...
JB- Continuamos a ter procura e a concretizar operações de captação de empresas, por exemplo transportadoras. Se as acessibilidades fossem muito más as transportadoras não vinham para Condeixa. Ou seja, e voltando à área das acessibilidades, a situação não é a desejada, mas também não é dramática. O que não quer dizer que a câmara não tenha de pressionar a Estradas de Portugal por causa do IC2 e que, dentro das suas áreas de competência, não arranje soluções alternativas para permitir um mais ágil escoamento do trânsito. E isso não é impossível. Conseguiremos minorar nos próximos anos alguns dos inconvenientes que advêm do facto da EN1 estar congestionada, sendo certo que esta estrada terá uma solução a longo prazo. Até lá temos de arranjar soluções que passarão pela criação de uma rede complementar de estradas municipais.
DC- Falava da captação de investimentos. Está a conseguir?
JB- Quando temos terrenos disponíveis eles são vendidos com relativa facilidade. Condeixa continua a ser um território com boa capacidade de captação de investimento e é nossa intenção continuar a desenvolver políticas para captar mais empresas.
DC- O parque industrial está capaz?
JB- Foi ampliado, está vendido e a nossa resposta quase desapareceu neste momento. Temos agora duas metodologias: vamos continuar a ampliar o parque, mas é um processo longo, mas se aparecer uma empresa considerada estruturante tentaremos, ao limite, resolver o problema e arranjaremos terreno.
DC- Ao nível do turismo, há as ruínas de Conímbriga. De que forma o município está a apostar nesta área?
JB- Condeixa distingue-se dos outros territórios por causa de Conímbriga, que é um centro diferenciador. Conímbriga é incontornável numa estratégia de desenvolvimento para os próximos 20 anos. Mesmo em termos de oferta industrial, porque hoje há empresas que se localizam também em função da envolvente histórica, cultural e paisagística. Se conseguirmos jogar com outras ofertas, poderemos criar atractibilidade em termos industriais. Em termos turísticos Conímbriga é essencial. Uma das acções do nosso plano estratégico é “Conímbriga 2020”, um projecto que exige uma forte parceria entre a câmara e a tutela. Tem de haver um envolvimento nacional num projecto de requalificação e vivificação de Conímbriga.
DC- O que falta a Conímbriga?
JB- Falta actualizar Conímbriga. Hoje os sítios de cultura têm de funcionar também como centros lúdicos e acho que falta investimento na parte lúdica. O que existe está demasiado estático, parou no tempo, e já não é capaz de ser competitivo enquanto pólo de atracção turística. Posso tentar apresentar propostas de dinamização, mas está completamente fora da minha área de influência. Podemos colaborar num programa de animação sazonal para vivificar Conímbriga e por isso avançamos com o projecto “Conímbriga 2020” onde vamos apresentar um conjunto de propostas ao Instituto Português dos Museus. Penso que é possível criar um novo espaço complementar de Conímbriga – o Fórum Condeixa 2020 – onde tentaremos oferecer os aspectos mais vivos que Conímbriga não tem.
DC- Notou-se um “apertar do cinto” durante este ano de mandato. Foi a solução para equilibrar as contas?
JB- Houve contenção o que não quer dizer que não se continue a investir muito. A câmara tem em curso alguns investimentos de grande dimensão que, só por si, quase absorvem a totalidade de investimentos. A biblioteca municipal, que era suposto ser financiada pelo Instituto Português do Livro e da Biblioteca, não foi. Eles não têm dinheiro, por isso estamos a pagar com capitais próprios, o que representa um grande esforço financeiro. A EN347-1, entre Condeixa e Rabaçal, está pronta e também aqui a câmara fez um esforço financeiro brutal, tal como na EN1-7, entre Condeixa e Taveiro. São obras fundamentais, mas são também obras pesadas. Quando me vir livre delas, a câmara volta a ficar mais aliviada. Sobre a situação financeira, não é boa nem é má, está francamente estabilizada. Evidente que foi preciso sacrificar algumas áreas e definir prioridades, porque o dinheiro não chega para tudo.
DC- Para 2007 quais são as prioridades?
JB- Quando apresentei o Plano de 2007 afirmei que era um documento elaborado numa situação muito complicada porque não tínhamos informações sobre o novo quadro comunitário de apoio. Elaborámos um plano que, tentando ser rigoroso e contido, deixa abertas algumas portas na perspectiva de financiamentos comunitários. Admito que se faça uma primeira revisão a curto prazo tendo em conta a informação que entretanto vamos tendo. Mas para 2007 garanto investimento em áreas como a educação, nomeadamente a construção de novas escolas do 1.º ciclo. Vai haver requalificação urbana, que passa não só pelo tratamento do espaço público, mas pela criação de novos arruamentos que reestruturem os centros urbanos. A nível de saneamento básico estamos prontos para avançar com projectos na zona mais deprimida do concelho (freguesias de Vila Seca e Bendafé).
DC- Que balanço faz deste primeiro ano de mandato?
JB- É um mandato calmo. Foi um ano de reflexão e maturação dos sistemas organizacionais e consolidação financeira, porque se vamos ter um QREN, uma oportunidade de investimento, precisamos de capitais próprios para investir porque o QREN não vai pagar tudo. Foi um ano de organização, reorganização, reflexão e estudo e conclusão de trabalhos importantíssimos.
DC- Que contributo tem dado a oposição?
JB- As oposições são sempre positivas porque ninguém é dono da verdade. Uma boa oposição contribui para um bom exercício do poder. Tenho muito respeito pela oposição e cumpro religiosamente o seu estatuto. Gostava que fosse mais ambiciosa. Do PSD noto alguma melhoria com as novas lideranças do partido, uma postura mais construtiva.


