Percorrer 5.000 quilómetros para fazer crianças sorrir
Seis jipes ocupados, maioritariamente, por conimbricenses vão percorrer quase cinco mil quilómetros para levar material escolar e outros bens às crianças da Guiné--Bissau. A expedição humanitária decorre na primeira semana de Março.
Coimbra, Espanha, Marrocos, Mauritânia, Senegal, Guiné. Entre 1 e 7 de Março, um grupo de portugueses, a maioria de Coimbra, vai desbravar os caminhos de África para levar material escolar (canetas, lápis, borrachas e livros), didáctico e médico (cedido pela Associação Saúde em Português) e ainda roupas.
Quem quiser colaborar pode dirigir-se ao Complexo Olímpico de Piscinas de Coimbra ou ao Pavilhão Multiusos e deixar a sua contribuição até 15 de Fevereiro.
É já a quinta vez que esta expedição humanitária se faz à estrada, desta vez com o apoio da Câmara Municipal de Coimbra. A comitiva não deve ultrapassar as 13 ou 14 pessoas, que a bordo dos seis jipes poderá transportar carga até 10 mil quilos pelos 4900 quilómetros do traçado.
Tudo começou quando dois ex-combatentes da guerra colonial decidiram voltar à Guiné-Bissau mais de 30 anos depois.
José Moreira, de Coimbra, e António Camilo, do Algarve, foram os primeiros a aventurar-se, mas nos últimos anos a caravana tem vindo a aumentar. E cada viagem é como se fosse a primeira. «Nenhuma é igual», adianta Fernando Ferreira, que participa este ano pela segunda vez na aventura, que alia o prazer da descoberta à solidariedade.
«É indescritível a alegria das crianças quando lhe estamos a entregar as coisas», salienta José Moreira. «Ver o carinho com que uma criança trata um saco plástico do Continente é arrepiante», completa Gustavo Santos, de Condeixa, que não tem vergonha de assumir que chorou «bastante» na sua primeira expedição, realizada em 2006.
“É uma gota de água”
Quando decidiu avançar com uma missão humanitária, António Camilo nunca tinha vivido nada do género. Este algarvio ainda há pouco tempo regressou de África e em pouco mais de mês e meio prepara-se para voltar. É uma espécie de “bichinho”, assume. «O “mal” é ir a primeira vez. Quem me dera a mim poder lá viver», frisa, acrescentando que até já lá fez «uma casinha à beira de um rio».
Aliás, das mais de 300 viagens que já teve oportunidade de realizar, Fernando Ferreira não tem dúvidas que a expedição à Guiné é a mais «marcante».
Atravessar os países é a dificuldade maior, por culpa das questões aduaneiras. Negociar uma t-shirt para passar uma fronteira ou pagar uma multa de excesso de velocidade com quatro esferográficas e dois relógios é por vezes o segredo para poder seguir uma viagem, que custa a cada um dos participantes cerca de 2500 euros.
De Portugal, levam a consciência de que a ajuda que vão prestar «é uma gota de água» num país em que falta quase tudo. «Mas damos o que temos e o que conseguimos», adianta Gustavo Santos.
Desde o início, a expedição humanitária tenta entregar o material que leva na bagagem directamente aos destinatários. Só na primeira viagem, a ainda pequena comitiva efectuou paragens em 18 escolas da Guiné.
Para o vereador Luís Providência, com este tipo de iniciativas fica também a ganhar a língua portuguesa, numa altura em que o francês está a “ganhar terreno” no país. Aliás, na opinião do autarca, contribuir para a missão é mesmo «uma obrigação de solidariedade».